domingo, 18 de agosto de 2019

O liberalismo fisiocrata

Norbert Elias
"São bem conhecidas as ideias básicas de Quesnay e dos fisiocratas. No seu Tableau économique (1758), Quesnay descreve a vida econômica da sociedade como um processo mais ou menos autônomo, um círculo fechado de produção, circulação e reprodução de bens. Fala das leis naturais de uma vida social em harmonia com a razão. Baseando sua argumentação nessa ideia, Quesnay opõe-se à intervenção arbitrária dos governantes no ciclo econômico. Deseja que estejam conscientes das leis deste, a fim de guiar-lhes os processos, em vez de baixar decretos desinformados ao sabor do capricho. Exige a liberdade de comércio, em particular do comércio de cereais, porque a autorregulação, o livre jogo de forças, criam em sua opinião uma ordem mais benéfica para consumidores e produtores do que a regulamentação tradicional vinda de cima e as incontáveis barreiras ao comércio entre províncias e entre países." (Norbert Elias, O processo civilizador I).

O conceito de civilização no século XVIII

Norbert Elias
"Conceitos como politesse ou civilité tinham, antes de formado e firmado o conceito civilisation, praticamente a mesma função que este último: expressar a autoimagem da classe alta europeia em comparação com outros, que seus membros consideravam mais simples ou mais primitivos, e ao mesmo tempo caracterizar o tipo específico de comportamento através do qual essa classe se sentia diferente de todos aqueles que julgava mais simples e mais primitivos." (Norbert Elias, O processo civilizador I).

sábado, 17 de agosto de 2019

A unidade social imediata como determinante do comportamento de grupo

Norbert Elias
"São ainda, em sua maior parte, desconhecidas a sociogênese e a psicogênese do comportamento humano. Até mesmo colocar questões a esse respeito pode parecer estranho. Ainda assim, é fato observável que pessoas de unidades sociais diferentes comportam-se de forma diferente e em maneiras muito específicas. Acostumamo-nos a considerar isto natural. Falamos do camponês ou do cortesão, do inglês ou do alemão, do homem medieval e do homem do século XX, e queremos dizer que as pessoas das unidades sociais indicadas por tais conceitos comportam-se uniformemente de uma maneira específica que transcende todas as diferenças individuais quando comparadas com as de indivíduos de grupos comparativos: por exemplo, o camponês em muitos aspectos comporta-se de modo diferente do do cortesão, o inglês ou francês do alemão, e o homem medieval do homem do século XX, pouco importando o quanto mais possam ter em comum como seres humanos." (Norbert Elias, O processo civilizador I).

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

O dilema das classes médias

Norbert Elias
"As portas debaixo devem permanecer fechadas. As que ficam acima têm que estar abertas. E como todas as classes médias, esta [a alemã da segunda metade do século XVIII] estava aprisionada de uma maneira que lhe era peculiar: não podia pensar em derrubar as paredes que bloqueavam a ascensão por medo de que as que a separavam dos estratos mais baixos pudessem ceder ao ataque." (Norbert Elias, O processo civilizador I).

sábado, 3 de agosto de 2019

Da alma ao corpo -- os últimos cinquenta anos

Zuenir Ventura
"Digamos que, ao contrário de 68, quando as pessoas estavam mais preocupadas com a alma do que com o físico -- melhor dizendo, com o interior do que com a aparência -- , o que predomina hoje são os cuidados corporais, médicos, higiênicos e estéticos: é o culto do corpo. Isso pode ser observado pela mudança no uso de determinados conceitos. Naquela época, Freud estava na moda, ao lado de Marcuse, Mao e Marx. Em certos meios, era difícil conversar sem empregar ou ouvir lugares-comuns psicanalíticos: transferência, repressão, recalque, ato falho, inconsciente, complexo de culpa. A forma de terapia mais recomendada em tempo de coletivismo era a 'análise de grupo'. 'Assumir' -- e não 'malhar' -- era o verbo dessa vulgata. Ele resolvia todas as questões: 'você precisa assumir' -- fosse uma fraqueza, uma culpa, um desejo, uma preferência sexual." (Zuenir Ventura, 1968: o que fizemos de nós).

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Aspectos da alma nacional

Roberto DaMatta
"Sei, então, que sou brasileiro e não norte-americano, porque gosto de comer feijoada e não hambúrguer; porque sou menos receptivo a coisas de outros países, sobretudo costumes e ideias; porque tenho um agudo sentido de ridículo para roupas, gestos e relações sociais; porque vivo no Rio de Janeiro e não em Nova York; porque falo português e não inglês; porque, ouvindo música popular, sei distinguir imediatamente um frevo de um samba; porque futebol para mim é um jogo que se pratica com os pés e não com as mãos; porque vou à praia para ver e conversar com os amigos, ver as mulher e tomar sol, jamais para praticar um esporte; porque sei que no carnaval trago à tona minhas fantasias sociais e sexuais; porque sei que não existe jamais um 'não' diante de situações formais e que todas admitem um 'jeitinho' pela relação pessoal e pela amizade; porque entendo que ficar malandramente 'em cima do muro' é algo honesto, necessário e prático no caso do meu sistema; porque acredito em santos católicos e também nos orixás africanos; porque sei que existe destino e, no entanto, tenho fé no estudo, na instrução e no futuro do Brasil, porque sou leal a meus amigos e nada posso negar a minha família; porque, finalmente, sei que tenho relações pessoais que não me deixam caminhar sozinho neste mundo, como fazem os meus amigos americanos, que sempre se veem e existem como indivíduos." (Roberto DaMatta, O que faz o brasil, Brasil?).

sábado, 22 de junho de 2019

A fraude da Revolução Agrícola

Yuval Noah Harari
"A Revolução Agrícola certamente aumentou o total de alimentos à disposição da humanidade, mas os alimentos extras não se traduziram em uma dieta melhor ou em mais lazer. Em vez disso, se traduziram em explosões populacionais e elites favorecidas. Em média, um agricultor trabalhava mais que um caçador-coletor e obtinha em troca uma dieta pior. A Revolução Agrícola foi a maior fraude da história." (Yuval Noah Harari, Sapiens: uma breve história da humanidade).

sexta-feira, 14 de junho de 2019

A atualidade dos textos de Marx

Eric J. Hobsbawn
" ... a continuidade do marxismo é bem mais evidente do que a de outras escolas de pensamento vitais e epônimas, como, por exemplo, o darwinismo. Não existe nenhum cientista que trabalhe no campo da evolução que não preste homenagens a Darwin; mas ninguém lê hoje A origem das espécies, salvo levado por curiosidade histórica, pela pietas ou por interesse pessoal. As obras de Marx, ao contrário, inclusive as da sua juventude, continuam a ser lidas como contribuições válidas para as discussões mais atuais; o mesmo se pode dizer para as obras de alguns marxistas posteriores." (Eric J. Hobsbawn, História do marxismo, vol 1).

domingo, 2 de junho de 2019

História e previsão do futuro

Robert Darnton
"Embora na minha opinião o estudo da história não renda lições que possam ser aplicadas diretamente em circunstâncias do presente, a imersão no passado é capaz de proporcionar uma perspectiva útil para os eventos do presente e do futuro." (Robert Darnton, A questão dos livros).

Futuro e história

Robert Darnton
"Acredito que qualquer tentativa de analisar o futuro ao mesmo tempo que lidamos com problemas do presente deva ser norteada pelo estudo do passado." (Robert Darnton, A questão dos livros).