domingo, 18 de fevereiro de 2018

O "bom" e o "mau" relativos a quem interessa dizer o que é o bom e o mau


Na condição de leitor incipiente simpatizo com muitos textos de Nietzsche – mesmo tendo tido contato apenas com algumas páginas ou simplesmente excertos de obras suas. É latente sua ânsia por uma libertação do homem de sob tudo o que o menoriza, que suprime seus impulsos e instintos e o submete a narrativas supersticiosas. Entretanto, do alto da mais profunda vala intelectual em que me encontro não posso deixar de me posicionar sobre algumas de suas ideias, por mais atraentes que sejam para muitos indivíduos.

Na Genealogia da moral  Nietzsche[1] apresenta duas origens para os juízos normalmente emitidos para as ideias de “bom” e “ruim”. Enquanto filólogo o autor não deixou de rastrear as origens de noções morais em vez de simplesmente apresentá-las como absolutas – como fazem alguns meus amigos e amigas, presos a superstições. O problema é que o filósofo da Basileia parece ser vítima, em que pesem seus esforços genealógicos, em prescindir da realidade histórica no momento específico em estabelecer suas conclusões sobre as origens dos referidos juízos. Senão vejamos.

Para Nietzsche “toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma”, enquanto que “a moral escrava sempre requer, para nascer, um mundo oposto e exterior, para poder agir em absoluto – sua ação é no fundo reação.” O filósofo ainda acrescenta que o homem nobre, aristocrático, “não reconhece a esfera por ele desprezada, a do homem comum, do povo baixo”, o que impediria que o olhar do tal homem aristocrático falseasse a imagem do desprezado, ao contrário do que este faz ao “seu adversário.” Tal atitude de ressentimento em relação à moral aristocrática, empreendida inicialmente por uma classe sacerdotal, em plena crise dos valores aristocráticos, teria dado lugar à moral dos ressentidos – a moral dos escravos ou do ressentimento.

O que Nietzsche parece ignorar, ao descrever a ausência de preocupação da aristocracia com as qualidades dos oprimidos é que a condição histórica dos vencedores em relação aos derrotados é realmente a instância que favorece aos tais “bem-nascidos”, a besta loura, ignorar as preocupações e anseios dos oprimidos, assim como sua conceituação do que seja a moral.

Os nobres, que conceituam a moralidade diferentemente da conceituação dos ressentidos, o fazem em relação a si mesmos, em referência a sua própria condição de grupo historicamente ileso às investidas dos homens em condições de opressão. Daí que estejam livremente capazes de atribuir conteúdo semântico totalmente isento da relação bom x mau elaborada por aquele que sofre na pele as agruras de sua própria condição.
Se o nobre dá vazão à sua natureza de besta loura, provocando assassínios, violações e torturas sem nenhum tipo de culpa moral, calcados na sua ideia de bondade alheia à situação dos violentados, assassinados e torturados, é natural que os oprimidos se arvorem na inteligência, no ódio entranhado, na vingança como estratégias de superação de sua condição.

Se sua moralidade destoa daquela dos aristocratas, não será uma análise filológica quem deverá dar a palavra final sobre o valor da reação dos ressentidos sobre os nobres – na melhor das hipóteses a análise filológica deverá apresentar uma descrição que justifique uma diferença entre uma moralidade e outra.

Um escravo sempre terá ótimas justificativas, assentadas na própria realidade que o encerra, para elaborar a sua própria ideia de bom e de mau.


[1] Todas as referências a Nietzsche referem-se a obra Genealogia da moral.

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