sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Morte aos utópicos!

Alguém já disse (permitam-me voltar sempre a esta dualidade inexorável!) que o que distingue a direita da esquerda, dentre outras coisas, é que esta defende a igualdade das condições de vida dos cidadãos enquanto aquela assume com naturalidade o aspecto fatalista da desigualdade. Norberto Bobbio chegou a mencionar, para caracterizar uma esquerda histórica, “homens cujo empenho político seja movido por um profundo sentimento de insatisfação e de sofrimento perante as iniquidades das sociedades contemporâneas.”[1]

Podemos ir além disso e afirmar mais uma diferença entre direita e esquerda, enfatizada por muitos autores e óbvia para qualquer pessoa com capacidade de leitura de mundo: esquerdistas parecem acreditar no melhoramento da humanidade enquanto direitistas assumem a maldade e egoísmos humanos – menos os deles próprios, quando se expressam sobre o tema naturalmente. A assunção desse egoísmo latente serve de base para aquilo que Comte-Sponville denominou de “a jogada genial do capitalismo”, isto é, “não pedir nada aos indivíduos, para que ele [o capitalismo] possa funcionar mais ou menos, nada além de serem exatamente o que são: ‘Sejam egoístas, ...’”.[2]

Se os homens podem ou não ser melhorados é uma questão que deveria fazer parte da nossa cotidiana reflexão, independente do espectro político-ideológico a que estejamos filiados – e todos estamos filiados a alguma ideologia que no seu cerne se filia a este ou aquele lado da questão (direita e esquerda).

O fato é que pessoas muito sérias morreram a partir da crença de que a humanidade poderia ser melhorada. Citemos Sócrates e Jesus Cristo. Muita gente já disseminou pontos comuns entre os dois eminentes personagens. Reenfatizemos mais este, então: ambos criam no melhoramento dos indivíduos, embora o vetor da mudança fosse diferente para um e outro.

Sócrates acreditava que ao sábio correspondia, necessariamente, a ação boa. O filósofo defendia que era possível, a partir da busca racional do conhecimento, conhecer o bem e, consequentemente, fazê-lo. Foi condenado num tribunal por “corromper a juventude”. Uma vez condenado bebeu cicuta e morreu.

Jesus Cristo por sua vez cria que era possível que o homem se redimisse de sua condição de mau e pecador. Longe de tal remissão depender de elaborados processos gnósticos, bastava ao homem crer na deidade de Jesus e arrepender-se dos seus pecados. A graça infundida no convertido o conduziria pelo caminho do bem, ainda que apenas reflexo de um proto-bem, a cidade celestial. Morreu crucificado entre dois ladrões comuns, acusado de blasfêmia.

É possível que encontremos socráticos em toda a extensão da história da filosofia, assim como cristãos, até hoje. Se foram/são fiéis às ideias dos respectivos mestres isto constitui uma outra história.

No que se refere ao socratismo podemos dizer que prevalece ainda hoje uma via alternativa ao que o filósofo propôs no seu tempo, isto é, a valorização de uma vida vivida sem a preocupação com uma busca pela razão da existência humana que justifique o seu melhoramento. Já no que diz respeito ao cristianismo, assistimos no decorrer da história da Igreja e das ideias religiosas do cristianismo uma quase que completa submissão ao aspecto material do desenvolvimento humano. A igreja que em algum momento ordenou aos seus ricos que se dispusessem dos seus bens e os distribuíssem aos pobres hoje assume o individualismo exacerbado expressamente exaltado em toda a extensão do dogma soteriológico (a salvação é individual e deve apresentar-se devidamente corroborada pelos bens materiais adquiridos, por qualquer meio, aqui na terra).

Se os novos socráticos e cristãos estão certos ou não, uma coisa é certa: não se pode mais imaginar qualquer modelo societário que dependa de uma suposta bondade inerente ao homem.

Este parece ter sido, segundo André Comte-Sponville, o “erro de Marx”.[3]



[1] In: Direita e esquerda.
[2] In: O capitalismo é moral?
[3] Idem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário