quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A cereja do bolo do Golpe

Hoje mais cedo me posicionei brevemente sobre a condenação de Lula em segunda instância. Enfatizei que todos os políticos brasileiros em geral são corruptos e que a ausência de eventuais provas contra qualquer eles é falácia. Disse ainda que se Lula foi alvo de condenação há algo além do “fazer justiça” envolvido. Minha argumentação, que ainda levou em conta a existência de um conflito de classes no país, recebeu elogios e críticas, a despeito da superficialidade da elaboração que fiz.

Dentre as críticas sobreveio aquela, já recorrente, de que me apresento sempre num nível impróprio (culto demais) para as redes sociais. Da parte dos elogios eu estaria me posicionando mais ou menos de acordo com autores que sequer já os li um dia. A ideia agora, com esse texto, é expandir um pouco mais o que já esbocei mais cedo. Então vamos lá!

A começar pela forma da minha expressão, devo dizer que não declinarei da minha escrita. Não é efeito de pedantismo ou de cultismo da linguagem; é, sim, naturalidade, aquela naturalidade com que leitores enclausurados escrevem sem recorrer a um esforço de preciosismo linguístico. Creio, ademais, que simplificar demais a linguagem pode impedir a comunicação de problemas por demais complexos. O primeiro deles é exatamente aquele que diz respeito ao fato de que um povo é sempre impedido de compreender a realidade na medida em que é privado de condições mínimas de domínio do vernáculo. Parabéns ao opressor neste aspecto, que faz sua parte muito bem feita pra impedir o acesso ao pobre a espaços efetivos de aprendizagem deixando de construir escolas e de abrir vagas em universidades, tout court.

Agora, partindo pra argumentação de que a prisão de Lula representa mais do que a condenação a um político corrupto, afirmo novamente que  tal condenação é, sim, reverberação expressa de conflitos de classes tão agudos quanto imperceptíveis na nossa sociedade. Senão vejamos.

Imagine qualquer político brasileiro sendo alvo de esforços tão efetivos de investigação como os da Lava Jato e julgados com um rigor assaz anticorrupção como supostamente o são os de Moro e da instância superior que relegou o Molusco a mais de uma dúzia de anos sob as grades. Dificilmente alguém escaparia ileso de tais esforços de investigação e condenação. E é nesse ponto que o caso de Lula se torna emblemático.

Discutia um dia desses com um amigo ao afirmar que Lula seria condenado porque mexeu com a elite do país. Ele arguiu a premissa dizendo que Lula, assim como seus filhos, também já fazem parte da elite econômica brasileira e que meu argumento era insustentável, que seria simplesmente mais um tipo genérico de argumento mantido pelo próprio estratagema populista de acirrar a luta de classes como forma de angariar a simpatia popular. De certa forma ele tinha razão. Mas eu tinha algo mais abrangente em mente ao supor a premissa.

Um país com o Brasil não dispõe de uma elite que se deva caracterizar apenas pelo aspecto econômico. Temos evidências de situações em que as pessoas enriqueceram do dia pra noite, inclusive via carreira política, e que hoje fazem parte da elite nacional. Um outro que empreendeu e que mudou de vida etc. Acontece que se trata, aqui, de uma espécie de individuo, um novo rico, que não é de fato um membro da elite brasileira considerada sob certos aspectos específicos.

Pierre Bourdieu referiu-se a alguns tipos de capitais que as pessoas possuem, como o capital econômico, o social e o cultural. Quando digo que Lula tocou numa estrutura determinada eu o faço em referência a um sistema instalado por grupos detentores dos mais variados tipos de capital que não apenas o econômico. O detentor de capital econômico apenas pode ser o mais pragmático dos ricos. Há, porém, outros, de matiz aristocrata, que são mais rigorosos. A riqueza da alma, tida como nobre, é mais exigente que aquela que foi constituída imediatamente pelo dinheiro. Difícil compartilhar a nave do avião, do shopping, do cinema, da casa de ópera, do teatro etc com pessoas que não têm o mínimo de nobreza ao lidar com esse mundo exclusivo.  Imagine ainda saber que pessoas dentre as mais despossuídas de repente passaram a ter acesso a escola, à universidade, ao plano de saúde e aeroportos de uma maneira tal que a linha, sempre rígida e agora tornada tênue, entre a exclusividade e o espaço comum, passa a se relaxar tão significativamente. É possível pensar a história recente política do Brasil fora dessa conjuntura?

Pelo menos pra mim, não. Obviamente que isso por si só não explica a ânsia pela condenação do principal vetor das mudanças que desestruturam esse sistema de castas no Brasil. Precisaríamos ainda mencionar a onda excessivamente conservadora que enxerga na esquerda brasileira a corrupção dos costumes e o relaxamento da ordem. Há ainda os que compram o discurso do famigerado “Estado Mínimo”, seja lá o que isso represente para eles, em favor de um sistema financeiro internacional que exerce uma influência poderosa sobre os destinos das nacionalidades com potencial emancipatório.

Enfim, mais do que paixão pelo petismo há uma tentativa de compreensão de um movimento da história que pode ser, senão fácil, pelo menos vagamente percebido.

Essa compreensão, posto que vaga, sinaliza que as forças progressistas e emancipatórias no Brasil sofreram um duro golpe e que os golpeados são exatamente aqueles atravessados por duas setas cruéis: a da pobreza e a da exclusão.


O momento é pra chorar.

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